Emboscada à Getúlio
Paulo Lobo voltava, de uma
reunião pela Avenida Brasil, no seu Maverick amarelo 74, quando a programação da
rádio foi interrompida para transmitir uma notícia urgente: “O empresário
Getúlio Camargo Gouveia, presidente das empresas GCG Química, fora vítima de
uma emboscada no Aterro do Flamengo e apesar de seu carro ser blindado ele fora
alvejado com três tiros estando internado em estado grave no Hospital Municipal
Miguel Couto. Detalhes no nosso Informe no Ar ou em edição extraordinária”. A
GCG era sua mais nova cliente, poucos dias antes o próprio Getúlio o contratara
para investigar um caso de espionagem industrial. Ele lembrou do imponente
cliente e do que já sabia sobre ele:
A natureza irrequieta de
Getúlio fez de sua vida um baú de novidades. Nascido em berço de ouro, numa das
enormes fazendas no interior do Brasil, passou os primeiros 30 anos de sua vida
estudando. Dedicava-se a utilizar produtos renováveis obtidos entre os vegetais
para criação de produtos industrializados.
Seu trajar em tudo remetia
aos coronéis sertanejos. Só usava terno de linho e jamais abandonava seu chapéu
e sua bengala. Insistia nas botas de cano longo, camisas de cambraia de linho
com suas iniciais bordadas e optara pelas gravatas italianas.
Seus marcantes traços
nordestinos contrastavam com seus olhos claros de um castanho esverdeado
indescritível, cabelos claros e 1,80m de altura. Essas características foram
herdadas de sua avó de origem germânica.
Além de primar por sua
elegância estereotipada e de ter uma postura administrativa moderna e
descentralizada, evitando emitir suas opiniões, todos já sabiam que era
impossível demovê-lo de suas decisões. Uma vez decidido era sua a última
palavra na família e na empresa.
Sua pequena indústria montada
nos anos 70, na Rua do Bispo, já tinha por base a pesquisa científica. Muitos
dos que achavam absurdo os altos gastos da empresa em criação de produtos
inovadores e sem mercado desenvolvido hoje invejam o porte das empresas GCG
Química.
Apesar de separado da esposa
mantinha-se na condição de casado. Sustentava duas casas e a esposa mantinha-se
tradicionalmente submissa ao marido como sempre fora. Tinha um casal de filhos.
A menina, Gisele, hoje com 35 anos, dedicou-se mais aos estudos da Química e
estava sendo preparada desde sempre para suceder seu pai na área técnica da
empresa, morava com a mãe desde a separação do casal.
Já o filho, Nelson,
tornara-se muito cedo independente do pai. Dedicara-se mais aos negócios e
despontava como um dos melhores executivos da atualidade quando abandonou o
mercado, onde tudo aprendeu, onde se desenvolveu. Voltou ao berço assumindo com
seu pai a administração dos negócios familiares levando a modernidade aos
modelos administrativo e produtivo proporcionando um dinâmico e significativo
crescimento.
Mesmo casado e com dois
filhos Getúlio era um homem solitário. Nelson tinha sua própria vida e morava
sozinho e o casamento acabara há 19 anos e Nanci morava com a filha na mesma
vizinhança. Nanci mantinha os hábitos e afazeres de uma esposa e era quem
cuidava da casa de Getúlio orientando os serviços, cuidando das roupas,
alimentação e demais detalhes para o ex-marido com o qual se mantinha
oficialmente casada apesar de há tantos anos já separada. Nem ele, nem ela,
mantinham qualquer outro relacionamento que se soubesse.
Getúlio era dedicado
exclusivamente ao seu trabalho desenvolvendo produtos que eram exclusivos, sem
semelhantes no mercado e os métodos de elaboração de um desses produtos passou
a ser alvo de espionagem industrial. Chegara até Getúlio notícias de que
algumas empresas de química aplicada foram contatadas para desenvolver um
similar do “Ruído” um solvente biológico que tinha aplicações fundamentais na
indústria de exploração petrolífera.
A diretoria da GCG resolveu
contratar um investigador com capacidade de mais do que prevenir, identificar o
espião.
Entre as indicações que
conseguiu no mercado o destaque ficava com o Gabinete Lobo, supreendentemente a
mais nova entre as empresas indicadas, ele registrara na entrevista de
contrato. Em especial ela tinha os melhores e mais rápidos resultados.
Lobo - o investigador
empresarial, como ele mesmo se denominava - estava a um mesmo tempo estarrecido
pela notícia e contrariado com os fatos. Fora policial federal e trocara a
segura carreira pública pela iniciativa privada, com foco em empresas onde a
violência era exceção. Contratado diretamente por Getúlio manteve contato
exclusivamente com ele. Mas se o ataque a Getúlio tivesse ocorrido antes de sua
contratação certamente não aceitaria o caso. Agora não via como abandoná-lo
pois o policial que habita nele sentiu-se desafiado. Por que sou assim? -
Pensava ele quando uma buzinada trouxe-lhe de volta ao trânsito agressivo.
***
***
O Atentado
Getúlio, estranhamente, saíra mais cedo da empresa naquela sexta-feira - fato raro. E seguia pelo aterro do Flamengo quando cercado por 4 carros foi alvejado com armamentos de grosso calibre que, diante da grande quantidade de tiros, rompera a blindagem de um dos vidros do carro e três tiros atingiram Getúlio.
As imagens captadas pelas câmeras de segurança não refletem a agonia daquele momento. A ausência de som, a distância e o pequeno trecho filmado só permitem vislumbrar um grupo de cinco carros, um sedan preto grande se distinguindo dos demais, todos lentos para um Aterro do Flamengo sem trânsito e na sequência a quebra do vidro traseiro do sedan no lado do motorista, o afastamento dos outros quatro enquanto o carro preto estacionava junto a calçada de onde o motorista desesperado sai em disparada.
Naquela mesma sexta-feira, em outro ponto da cidade, a sobrinha de Lobo é sequestrada.
***
O Sequestro
Fim de tarde, fim de semana, toca o sinal e os alunos em bandos alegres e tagarelas vão deixando o Curso Normal do Instituto de Educação, onde aprendem a ser professores - na verdade professoras em sua grande maioria. Na entrada vão se formando grupinhos, muitos rapazes antenados em cada uma das meninas, esperam por uma mas não perdem a oportunidade de olhar a vitrina em desfile ao seu redor. Alguns carros e motos parados: são pais, namorados... Angélica se atrasara e saia depois de seu grupo. Vai atravessar a rua quando percebe a chegada de uma van e no reflexo volta para a calçada evitando o provável atropelamento. Na van, ainda em movimento, se abre a porta traseira e Angélica é brutalmente puxada para dentro por quatro fortes mãos. A van arranca quase atropelando muitos alunos que pulam e correm para escapar do carro já em grande velocidade. Cantando pneus, a van dobra a esquina.
Dentro da van a menina quase sem enxergar na escuridão repentina se vê cercada por alguns homens - não sabe quantos - encapuzados e recebe uma mordaça adesiva e um saco de pano preto e grosso na cabeça e abraçadeiras plásticas são usadas como algemas em seus pulsos e tornozelos.
As curvas em velocidade, a cegueira provocada pelo capuz e a impossibilidade de apoiar-se onde quer que fosse fazem com que, esbarrando nos corpos que lhe cercam, ela vá ao chão de onde não mais consegue erguer-se. Ela se rende ao inevitável e chorando se mantém o mais imóvel que consegue.
As diversas vozes gritando ordens e discutindo estão estranhamente caladas e a van para. Ela percebe que alguns passageiros saltam e ela acredita estar sozinha na traseira da van que agora anda em velocidade normal sem nenhuma conversa e apenas uma música orquestrada e baixa toca no aparelho de som do carro. Nem a música ela reconhece.
A avalanche de pensamentos desconexos está se acomodando. A adrenalina já dispersa em seu organismo a coloca atenta, pensativa mas já não está atordoada. Em meio ao choro convulsivo percebe que esta descomposta e se esforça para arrumar seu corpo fazendo com que a curta saia cubra pelo menos o que for possível. Isso a faz sorrir apesar do desespero. Tolice uma preocupação dessa quando esse é o menor de todos os problemas.
Nada pode ser pior do que estar sem qualquer noção de direção. As curvas surpreendem seu corpo que tenta reagir buscando um equilíbrio em vão. Mas as coisas estavam para piorar, e muito.
A sua volta, ferindo sua audição aguçada pela impossibilidade da visão, explode incontáveis sirenes. Ao que parece devem ser três viaturas perseguindo a van que ganha velocidade e os dois homens conversam sobre como escapar do túnel. Túnel - Angélica se pergunta - que túnel? Estamos assim tão longe da escola? A mudança dos ruídos do tráfego a permite perceber que entraram no túnel. Os dois homens discutem na frente do veículo o que lhe dá certeza de que na parte traseira está apenas ela. Mas do que isso lhe adianta? Mãos e pés presos, encapuzada...
- Eles estão vindo na contramão, estão fechando as duas pistas!
Ela ouve os gritos de pânico, a freada brusca, cantar de pneus do carro que gira descontrolado. Uma batida na lateral, mais duas, o carro para e seu corpo machucado também se acomoda, as portas dianteiras abrem, tiros, muitos tiros. Ela deitada no chão da van, em desespero, sem saber o que fazer para se defender, para fugir dali.
Um grande silêncio. Vozes se aproximando. Porta da van forçada e se abrindo com dificuldade. Capuz retirado. Eram homens, alguns policiais militares e dois certamente policiais civis pois estavam armados mas sem fardas. Mãos libertas, pernas soltas. Levada à viatura da polícia civil, nela para uma delegacia e lá encontra e se joga abraçando desesperada seu tio Paulo.
- Lobo! Conhece ela?
- Minha sobrinha! - Angélica!
- Ela deu sorte. Foi sequestrada, mas eles não eram profissionais. Foram pegos num cerco no túnel Catumbi-Laranjeiras. Estão mortos.
***
Todo amor em abraços
Abraçada ao tio Angélica sente seu corpo inteiro estremecer. Ela nem pensara no assunto, ouvira tiros e tudo mais. Mas só agora percebia a extensão dos fatos ao tomar conhecimento repentino da morte se seus sequestradores. Paulo estreita mais seu abraço tentando oferecer aconchego e conforto à sobrinha extremamente abalada.
- Eu soube. Meu irmão já está aqui na delegacia. Deixe-me devolver a menina ao seu pai.
- Ela tem que depor.
- Eu sei, o pai está lá fora e vai acompanhá-la, meu irmão é advogado.
- Ela é a filha da Glorinha? Tudo certo. Vai lá que eu te espero.
Com um simples aceno Paulo confirmara que Angélica era filha da inspetora da Delegacia de Homicídios Glória Lobo, conhecida simplesmente como Glorinha. Seu interlocutor era mais um dos muitos policiais que Paulo Lobo conhecera ao longo de sua carreira de policial federal. Carreira que deixara após ver sua família envolvida em risco de morte durante uma operação que atravessara seu caminho em Maricá (As Grutas de Spar).
Um tenso Afonso Lobo sente um alívio imediato relaxar todos os seus músculos enquanto correr para abraçar a filha. Ele chorando, e ela em prantos, não trocam palavras. Ele desejava que aquele abraço fosse uma redoma de diamante que dali para frente protegesse totalmente sua filha das crueldades humanas. Enquanto ela conseguia sentir-se em casa, em plena segurança, como se estivesse de volta a seu berço, cercada por seus pais. Incrível a força de um abraço de pessoas que realmente se amam!
O ex-policial Lobo se afasta em direção aos policiais para tratar do atentado à vida de seu cliente. A sobrinha está em excelentes mãos - seu irmão.
***
Os inocentes sequestradores
O Inspetor Luís finalmente começa a receber informações de sua equipe e do IML e nada mais faz sentido. A van usada no sequestro não havia sido roubada e era cadastrada com Van de turismo estando totalmente regular em todos os órgãos. Seu proprietário era Arnaldo Freitas.
A equipe que fora à residência de Arnaldo Freitas voltava à delegacia com duas vítimas de cárcere privado sem que se encontrasse quaisquer dos carcereiros.
As primeiras informações do Instituto Médico Legal oferecem a identificação dos sequestradores: Arnaldo Freitas, 39 anos, casado, carioca, agente de turismo e Aluísio Freitas, seu irmão, 22 anos, solteiro, carioca e também agente de turismo. Ambos registrados como agregados com veículo próprio em três grandes e renomados hotéis da zona sul do Rio de Janeiro. Ambos sem qualquer passagem pelo cadastro nacional de segurança pública, conforme consulta ao INFOSEG.
Enquanto estas informações são divulgadas pela mídia em cadeia nacional à revelia do Inspetor Luís que as preferia sigilosas pelo menos por 24 horas, chega em seu gabinete as vítimas de cárcere privado - 3 mulheres - esposa e filha (menor) de Arnaldo e noiva grávida de Aluísio.
Enquanto ouvia as duas mulheres de maior o Inspetor Luís foi informado da chegada da Inspetora de Homicídios Glória Lobo e, diante dos fatos, fez questão que ela participasse daqueles depoimentos.
As mulheres (de maior) informaram que naquela madrugada sua casa fora invadida por 4 homens e certamente outros estavam fora da casa. Estes homens fortemente armados prenderam todos com abraçadeiras plásticas, amordaçaram todo o grupo formado pelos 2 casais e a filha de Arnaldo.
Dominados ouviram apavorados as ordens de seus algozes. Os homens deveriam retirar os bancos da van de Arnaldo e seguir o itinerário e ordens que lhes seriam transmitidos posteriormente. Cumpridas as ordens deveriam voltar para casa sem, em nenhum momento, fazer qualquer contato com quem quer que fosse. Depois disso poderiam fazer o que quisessem - inclusive buscar a polícia - sem qualquer problema futuro.
Os homens foram liberados para cumprir as ordens dadas e sabiam que as 3 vítimas ficariam reféns até seu retorno. Se tudo corresse bem eles as encontrariam com vida.
Não importa aqui maiores detalhes porque nenhuma forma havia de identificação dos delinquentes, nem mesmo a voz pois o único que falou usou ela distorcida, fina e lenta.
Na recepção um grande alarido. Um grupo acusava os policiais de assassinato e uma confusão se formava. No lado de dentro a voz dos cunhados foi reconhecida.
Inspetor Luís, ao sair para receber o grupo encontrou Paulo Lobo tentando acalmar os irritados homens. Com um simples aceno os mandou entrar na pequena sala que se viu latada em instantes.
REDE INFOSEG - MAIS INFORMAÇÕES - http://www.infoseg.gov.br/paginas/rede-infoseg/descricao
***
Desafios a um investigador
Impossível apaziguar os ânimos e o Inspetor Luís evacuou a sala dividindo o grupo de forma que as vítimas de cárcere privado foram depor junto ao escrivão, os irmãos dos sequestradores, que tudo indicava serem inocentes coagidos a praticar aquele delito, foram para o plantão dar parte de assassinato contra a equipe de policiais que conteve o sequestro executando os irmãos dos agora acusadores.
Estavam na Delegacia do Catete que estava encarregada, até o momento, do atentado contra o Dr. Getúlio. Lobo conseguira uma cópia de baixa qualidade da filmagem das câmeras de segurança com um amigo da Central de Comando e Controle, ele enviara para o smartphone do investigador. A análise do vídeo fora interrompida com a notícia do sequestro e resgate de Angélica.
- O caso do empresário Getúlio já estava com a cunhada de Lobo, Glorinha. Ela é, entre os inspetores, a que mais se destaca na Homicídios e esse caso prometia ter desdobramentos na mídia como o sequestro de Angélica já estava tendo mas teria que ser assumido por outro inspetor já que a vítima fora a filha de Glorinha.
Paulo comentara com o Inspetor Luís: - Não que eu deseje que minha cunhada me forneça informações privilegiadas, mas quero saber que o caso vai ser levado a sério sem desconsiderar qualquer detalhe apesar da pressão da Secretaria para apontar um culpado à mídia para o atentado ao Getúlio.
Ficaram ali por aproximadamente meia hora e interromperam a reunião para que Paulo Lobo acompanhasse o depoimento de Angélica que não acrescentou nenhum detalhe ao que se sabia. Nem quantos homens tinham na traseira da van Angélica soube informar ao certo, no mínimo, disse ela, eram dois.
Paulo tinha pela frente muito trabalho. Não ia deixar de investigar o sequestro da sobrinha. Provavelmente isso lhe incomodava mais do que a tentativa de matar o Dr. Getúlio. Mas ele precisava, nos dois casos, de muitas respostas.
Motivos? Qual a motivação de cada um dos casos? Esse era o principal dilema que desafiava a mente matemática e lógica do investigador.
O caso do Dr. Getúlio tinha hipóteses demais, já o caso de sua sobrinha apresentava total ausência de hipóteses, daí seu interesse maior.
Afonso e Glória não tinham posses invejáveis. Ela era policial civil e seu irmão advogado civilista. Tinham um bom padrão de vida e muitas dívidas como toda classe média.
Apesar da incontestável beleza de Angélica que se destacava bem acima da média, não se tinha notícia de qualquer investida estranha por conta disso, ela não se expunha nem era uma periguete, era bastante discreta e não usava joias. Faltava ver seus relacionamentos na internet, mas certamente Glória se mantinha tão atenta a este aspecto como a possibilidade do uso de drogas, que até ele mesmo, como tio, monitorava.
De uma só coisa ele estava certo. Havia algum interesse econômico, ninguém investiria tanto para promover um sequestro se não houvesse possibilidade de retorno financeiro. Aquele sequestro ficara caro até demais: um veículo, dois homens e armas.
Nem mesmo a possibilidade de vingança contra o pai - que não era criminalista, ou contra a mãe - policial. Seria mais barato e eficaz eliminá-la do que sequestra-la.
Ainda assim ele iria verificar namorado, paqueras, ficantes, internet e amigos do bairro e da escola - um psicopata é capaz de tudo!
E Getúlio? Espiões industriais só costumam matar se o acesso à informação depender disso. O que poderia estar por trás desta tentativa de homicídio, ou melhor, quem?
Herança, disputa empresarial, disputa financeira, algum grande cliente? Algum produto revolucionário? Amantes? Problemas financeiro sérios ou dívidas? Jogo, tóxico, mulheres? Realmente, naquele caso, as hipóteses eram inúmeras e todas possíveis e compatíveis com o atentado praticado em via pública em plena luz do dia. Certamente ali estava um recado para mais alguém. Mas de quem para quem?




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